
Era uma vez uma casa. O muro era alto e ela ficava no subúrbio. No subúrbio não. Num bairro, pacato à noite. De dia os carros passavam em manadas, em bandos, em enxames e a noite rareavam em sua visita. Isso se dava porque a casa ficava no meio do caminho que faziam os empregados de duas grandes fabricas.
A casa tinha os muros altos. Tão altos que uma vez um rapaz passando de ônibus com a namorada observou: “É, aquela casa não está em condomínio, porém é muito segura. Ninguém pula este muro”. Claro que o rapaz não considerou o homem aranha ou qualquer outro ser super de algum modo. Considerou alguém como ele, o que considerou errado, no fundo, ninguém é parecido com ninguém.
Considerou errado ainda porque numa tarde pacata aconteceu o que o rapaz achou impossível.
Era chegada a tarde, rareavam a luz e os carros, quando chegou o rapaz estranho que fingiu estar a esperar o ônibus do outro lado da rua. Mas o ônibus dele nunca vinha. Os carros começaram a nunca vir também, e foi aí que ele sorrateiramente foi para o outro lado da rua, de esquina – esqueci-me de dizer, mas a casa é na esquina – olhou para os lados e jogou a corda por cima do muro. Um barulhinho agudo e surdo indicava que a corda estava bem presa no alto do muro, pelo ferrinho que nem mesmo o rapaz sabia o nome. Talvez ele tivesse tido aquela idéia de algum filme, pois rapazes estranhos não têm tanto conhecimento assim. Naquela hora não dava tempo de pensar muito. A rua vazia, as janelas fechadas e o impulso: já caiu do outro lado. Procura os óculos que caíram adiante, a arma caíra um pouquinho pra lá, precisava pegá-la e ficar atento. Antes porem limpar um pouquinho da terra da calça, vai que sai lá fora e descobrem onde estivera e descobrem o culpado do roubo da casa era ele... bateu a poeira da calça e esticou a mão para pegar a arma. Foi aí que pularam em cima dele dois cães. Num instante ele achou que eram dobermans, o vizinho tinha um, andava com o focinho preso. O que uma senhora de idade poderia querer com dois cães daquele? Havia passado duas semanas a vigiar a senhora que só saia solitária uma vez ao dia para a missa. Nenhuma referencia de cães havia tido. A senhora nunca comprara nenhum tipo de ração ou coisa que remetesse aos cães. E no dia em que havia desfilado de pernas de pau olhando pelo muro, sequer nesse dia tinha visto cães. Só lembrava dos canteiros de verduras e flores, muito bem organizados e regados, com plaquinhas indicando ora alface, ora morangos, ora cravos e margaridas. Algumas arvores de frutas preenchiam o enorme quintal. Tudo devia ser muito adubado.
O rapaz congelou a mão. Os cães rosnavam baixo como se ameaçassem. O rapaz esticou mais um pouco a mão para pegar a arma, fazendo um barulho com a boca que tanto poderia ser: fique quieto cãozinho ou um pssit pssit continuado. independente do que era foi seu erro os cães não gostaram e voaram pra cima do rapaz. Não deu tempo para o grito: um feriu-lhe mortalmente a garganta enquanto o outro puxava a perna e a sacudia com força. O sangue lavou a terra e os cachorros continuaram tentando lhe arrancar os pedaços.
A luz da varanda acendeu. Apareceu uma senhora de vestido de bolinhas vermelhas, muito simpática, gordinha que ralhou: “Luc e Ralf! Já chega! Vá pra casa de vocês, eu coloquei a ração lá.” E foi examinar mais de perto. Os cachorros colocaram o rabinho entre as pernas e saíram ganindo baixo.
A senhora colocou a mão na cintura, balançou a cabeça e respirou fundo: “Já foi o tempo em que adiantava ter muro alto”. O que constata imediatamente que o rapaz do carro estava absolutamente errado, apesar do que nunca ira saber disso.
A senhora voltou a cozinha e bebeu um copo de água. Depois se dirigiu para o cômodo fora da casa onde guardava as ferramentas com as quais cuidava dos canteiros e começou a cavar. Cavava lenta e aos poucos começou ir mais rápido, pegando o jeito e cavou a um tanto razoável, já estava com o rosto suado e sujo, o vestido manchado de terra, as sandálias em estado miserável. Apoiou-se na enxada, enxugou o suor com as costas da mão e respirou fundo. Olhou o céu. O gato miou perto e retirou-a do seu momento contemplativo: ‘Ei Jana!’ Fez um cafuné no gato que passava o corpo em suas pernas. Essas manias que os gatos têm de marcar a sua família e achar que você tem obrigação de acarinhá-los. Mas ela não pensava assim. A mente estava preguiçosa por ter cavado tanto. Andou ate o rapaz estranho, agora morto e ensangüentado, sem um pedaço da perna, e arrastou-o por debaixo dos braços ate a cova, mais ou menos funda, onde o jogou. O gato ainda estava por ai e ela disse: “Vem com a mamãe ate a cozinha Jana”, imitando voz infantil, como se fosse a do gato. Não sei o que as pessoas pensam quando fazem voz fina e imaginam que é de um bicho ou de uma criança. É ate colocá-los no mesmo patamar de inteligência, mas isso seria uma discussão um tanto filosófica e a senhora não gostava de filosofia. Preferia fazer bolinhos, ver a novela, cuidar da horta e ir a missa todos os dias. O gato a acompanhou ate a cozinha onde bebeu um copo de água, tomou uma xícara de café. Não devia estar muito quente, pois ela o virou de um só gole, parecendo homens de obra apressados por remexer mais um tanto de massa pra colocar neste ou aquele muro. Voltou a senhora e com a enxada revolveu a terra de volta, tapando, bem tapado, o buraco. Via-se agora que era um quadrado, quase que medido, de terra remexida no quintal. Trabalho feito, ela voltou no cômodo das ferramentas, pegou um cesto e ainda voltou ate o quintal para pegar algumas jabuticabas. O pe estava cheio. Alguma formiga subiu-lhe na mão porque ela sacudiu os dedos energicamente e deixou de lado aquela empreitada maluca que é pegar frutas de noite sem lanterna. Voltou com a cesta e o gato no encalço. Ouvia-se um cricri que não se sabe se eram grilos ou estrelas.
A senhora simpática verificou a água dos cães, agora calminhos, e entrou em casa com a cesta do chão forrado de jabuticabas e o gato atrás. O gato ficou na cozinha e a senhora foi ate o banheiro. Tomou um banho, colocou a camisola, as meias e foi ter bons sonhos que quem trabalha tanto assim, merece ter.
Acordou cedo. Passou o café, fez os bolinhos e foi a missa. Voltou animada. Trocou de roupas (Colocou um macacão, um chapéu, luvas), pôs a ração do gato, dos cães, uma água doce pros passarinho pendurada nos paus da parreira de uva. Foi ate o cômodo das ferramentas e pegou o arminho, a colher de plantio, as sementes, a placa já pronta e o regador. Colocou na varanda e pegou ainda o radio a pilha onde colocou pra tocar uma musica mais antiga, da sua época, numa radio que só passava musica antiga, que tinha se esquecido no ontem.
Trouxe tudo para o quadrado de terra fofa e nem precisava do regador: o orvalho tinha tratado de molhar. Cantarolando a musica, pôs-se a fazer buraquinhos na terra, em fileiras, com intervalos de 20 cm cada – fileira e buraco. Colocou três sementinhas em cada e jogou terra fofa por cima. Ao final fincou no chão uma nova plaquinha: Hortênsias.
Por Claudia Gomes, sempre.