sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Trauma - O silêncio de dentro de mim


Há silêncio dentro de mim.
Este pasto selvagem que me devora
Esse medo, que me corrói, de uma outra hora
Essa solidão que me apavora.
Há silencio dentro de mim.

O silêncio das não respostas,
Essa vela apagada
Essa coisa morta
Esse suspiro fundo
Essa menina solitária, triste,
Medrosa, insegura
Que existe em mim
E faz silêncio.

Não o silêncio bom das matas virgens
- Que até os passos do animal são de silêncio
Que até a flor que cresce faz silêncio.
Nem tampouco o silêncio do suspense que prevê o grito
Ou o silêncio que já teve o grito.

É um silêncio de vazio.

É um silêncio de cemitério
Sem vento,

Com pássaro preto,
Com terra mal capinada,
Com flores secas
E vestígios de lágrimas.
É um silêncio profundo, infundado,
Que já se esqueceu a que veio e porque ficou lá.

Por Claudia Gomes, sempre.




domingo, 18 de outubro de 2009

Três poemas para a vovó

Luto

Abre o olho, vó!
Abre o olho.
E ela nada.
Imóvel sobre as flores
Como um sonho
De Morfeu virado.
Sob as pálpebras
A ultima visão:

A casa com cinco crianças
E como no tangolomango só sobraram duas.
A quebra do resguardo
As brigas de facão
Com o primo
- Também marido -
E a separação.
As duas crianças pelo mundo,
Os ossinhos na prateleira
O besouro no ouvido
E o zumbido.

Um dia vai morar com uma das crianças
E sonha
Em ter casa de novo
E sonha
Com os parentes, os antigos, de quando ajudou o cabo Joel a prender um bandido – mesmo que ninguém se lembre.
Com as historias, os causos, a menina do surrão, a onça e o bode.
Todas estas coisas estariam guardadas
Para sempre.

Abre os olhos, vó!
E as lagrimas corriam geladas como a pele da vó.
Pele de nuvem.
A professora disse do que as nuvens eram feitas
- Cristais de gelo.
E ela não abria os olhos
Estelita, como a chamavam desde o primeiro dos seus 72 anos,
Tinha ganhado o céu como previa o nome.
Não ouvia os choros, os gemidos dos parentes reunidos por sua causa.
Não ouvia nada.
- Acorda, vó! – disse em prantos,
Mas era tarde e as estrelinhas já apareciam no céu.

Dia 09/10/2009 meu amor de avó, Estelita Maria de Jesus, se uniu ao resto do próprio nome.

Por Claudia Gomes, de luto.

Herança


Nunca pensei em ler certidão de óbito pra família reunida. Ansiosos pra voltar à roça ouviram o certificado de que o nome da minha avó agora registra num livro dos mortos.
Nunca pensei em ver minha mãe órfã beijando o rosto frio da minha avó em desespero. Em algodão e formol, ela parecia uma santa emoldurada e serena, quase artificial.
Quando viva a pele da vó parecia pêssego quando eu a beijava, os olhos dela brilhavam, soltava uma risada rouca, fruto de fumo Sabiá.

Desculpe não te levar flores, vó.
Vim de longe pra te ver pela ultima vez e foi tão rápido!
Surreal, como um sonho, você estava num sono profundo cercada de flores.
A mãe lembrou que a senhora não queria cortar o cabelo com medo de morrer com ele curto.
A tia lembrou que esta semana a senhora não deixou ela comprar o isqueiro que comprava todo mês pra fumar o cigarro que te matou aos 72.
A tia ainda falou que ontem no medico a senhora foi tomar uma injeção no bumbum e era durinho!
Bom pra senhora e sua vaidade, vaidosa que era!
Deixou roupas limpas, muitos brincos que eu te dei, o seu cheiro de colônia de alfazema, calcinhas ainda com a etiqueta. Culpa dessa tua mania besta de usar o velho e guardar o novo com medo de não ter.
Guardei pra mim teu terço que todos os dias acompanharam teus dedos, o lenço verde que minha mãe fez - e a senhora gostava de colocar na cabeça pra ir a roça no tempo de Nova Lima, São Mateus.

Não deu tempo de pedir mais uma vez:
- A bênção, vó.
E ouvi-la dizer com os olhinhos brilhando
E o sorriso rouco:
- Deus te abençoe, minha filha!

Saudade, droga de saudade.

Dorme bem, vó.
Que Deus a tenha.

Por Claudia Gomes, de luto.


Certidão de óbito
Fiquei sem historias.
Devolveram minha avó a terra.
Em troca, me deram esse papel.

Por Claudia Gomes, de luto.



Fica dolorido ficar vendo foto da vovó agora. Então coloquei essas imagens fofinhas. Vovó gostava de coisas fofinhas.

domingo, 4 de outubro de 2009

Reminiscências - Dividindo momentos importantes pra mim.

Festa da Oi Futuro como patrocinadora do Festival do Rio 2009, dia 02/10/2009. Do copo pra cá: Moana Mayal, Cris Witte, Ruslan Alastair e ... Claudia Gomes. De cabelo novissimo!

Neste livrinho cor de rosa, com flor de primavera, está um poema meu. O livro foi lançado na Bienal e eu fiquei tãaao contente!

Studio Buldog gravação das narrações dos filmes: Meninos da Guarani e Marcas de Vila. Eu, Edson Ferreira, Zezé Motta e Markus Konka. 23/09/2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Presentes de primavera


Recebi, ontem,
inesperadas e róseas,
as primeiras flores da primavera, pelas mãos do meu amor.
Não as reconheci no primeiro instante
- e espero que não estejam chateadas comigo por tal gafe.
Diante da minha cara de surpresa
na fresca manhã que se fazia,
meu amor me anuncia, eu encantada:
- São as primeiras flores da primavera!
E tinham cheiro de flor, tinham cheiro de campo, tinham cheiro de mato.
Junto com as primeiras flores da primavera,
veio o livro do gato.
Embrulhado em papel dourado,
Simplezinho e educado,
estava ali, enxadreirado.
Pobre do gato!
Gatos gostam de flores,
Não sei se flores de gato!
Mas agora que contei de fato
não há nem um bichano na casa.
Porém vários,
a caneca,
o boneco,
o DVD
e agora o livro.
Dá até pra imaginar os pêlos macios.

POr Claudia Gomes, sempre.
Bem vinda, primavera!

Manoel Carlos e versogramas




Em jornais saem umas coisas muito legais.

Jornal É uma coisa legal.

Mais aí acima estão amostras: um texto do fabuloso Manoel Carlos com o qual eu concordo muito e uns simpaticos Versogramas d'O Globo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Escritores unidos

Neste momento o escritor e amigo Cristiano Marinho, conhecido como Kizzy Ysatis, autor do rmance "O Clube dos Imortais", vencedor do prêmio Rachel de Queiroz da Academia brasileira de Letras, e a cineasta Marilis Marins, Filha do Zé do Caixão, conhecida como Liz Vamp, estão no hospital Santa Casa de Misericórdia, em SP, após terem sido barbaramente espancados pelos seguranças da boate gay A LOCA, em Sampa. Estão muito machucados. Quem me informou foi o próprio Kizzy, que diz ter até perdido alguns dentes por tamanha fúria dos agressores.Gostaria muito que ajudassem a denunciar essa barbárie. Não vamos deixar isso sair impune! O celular do Kizzy, é 11- 63406346Por favor, nos ajudem a denunciar em seus blogs!FFF
Segue o materia abaixo:

sábado, 29 de agosto de 2009

Os cães do jardim


Era uma vez uma casa. O muro era alto e ela ficava no subúrbio. No subúrbio não. Num bairro, pacato à noite. De dia os carros passavam em manadas, em bandos, em enxames e a noite rareavam em sua visita. Isso se dava porque a casa ficava no meio do caminho que faziam os empregados de duas grandes fabricas.
A casa tinha os muros altos. Tão altos que uma vez um rapaz passando de ônibus com a namorada observou: “É, aquela casa não está em condomínio, porém é muito segura. Ninguém pula este muro”. Claro que o rapaz não considerou o homem aranha ou qualquer outro ser super de algum modo. Considerou alguém como ele, o que considerou errado, no fundo, ninguém é parecido com ninguém.
Considerou errado ainda porque numa tarde pacata aconteceu o que o rapaz achou impossível.
Era chegada a tarde, rareavam a luz e os carros, quando chegou o rapaz estranho que fingiu estar a esperar o ônibus do outro lado da rua. Mas o ônibus dele nunca vinha. Os carros começaram a nunca vir também, e foi aí que ele sorrateiramente foi para o outro lado da rua, de esquina – esqueci-me de dizer, mas a casa é na esquina – olhou para os lados e jogou a corda por cima do muro. Um barulhinho agudo e surdo indicava que a corda estava bem presa no alto do muro, pelo ferrinho que nem mesmo o rapaz sabia o nome. Talvez ele tivesse tido aquela idéia de algum filme, pois rapazes estranhos não têm tanto conhecimento assim. Naquela hora não dava tempo de pensar muito. A rua vazia, as janelas fechadas e o impulso: já caiu do outro lado. Procura os óculos que caíram adiante, a arma caíra um pouquinho pra lá, precisava pegá-la e ficar atento. Antes porem limpar um pouquinho da terra da calça, vai que sai lá fora e descobrem onde estivera e descobrem o culpado do roubo da casa era ele... bateu a poeira da calça e esticou a mão para pegar a arma. Foi aí que pularam em cima dele dois cães. Num instante ele achou que eram dobermans, o vizinho tinha um, andava com o focinho preso. O que uma senhora de idade poderia querer com dois cães daquele? Havia passado duas semanas a vigiar a senhora que só saia solitária uma vez ao dia para a missa. Nenhuma referencia de cães havia tido. A senhora nunca comprara nenhum tipo de ração ou coisa que remetesse aos cães. E no dia em que havia desfilado de pernas de pau olhando pelo muro, sequer nesse dia tinha visto cães. Só lembrava dos canteiros de verduras e flores, muito bem organizados e regados, com plaquinhas indicando ora alface, ora morangos, ora cravos e margaridas. Algumas arvores de frutas preenchiam o enorme quintal. Tudo devia ser muito adubado.
O rapaz congelou a mão. Os cães rosnavam baixo como se ameaçassem. O rapaz esticou mais um pouco a mão para pegar a arma, fazendo um barulho com a boca que tanto poderia ser: fique quieto cãozinho ou um pssit pssit continuado. independente do que era foi seu erro os cães não gostaram e voaram pra cima do rapaz. Não deu tempo para o grito: um feriu-lhe mortalmente a garganta enquanto o outro puxava a perna e a sacudia com força. O sangue lavou a terra e os cachorros continuaram tentando lhe arrancar os pedaços.
A luz da varanda acendeu. Apareceu uma senhora de vestido de bolinhas vermelhas, muito simpática, gordinha que ralhou: “Luc e Ralf! Já chega! Vá pra casa de vocês, eu coloquei a ração lá.” E foi examinar mais de perto. Os cachorros colocaram o rabinho entre as pernas e saíram ganindo baixo.
A senhora colocou a mão na cintura, balançou a cabeça e respirou fundo: “Já foi o tempo em que adiantava ter muro alto”. O que constata imediatamente que o rapaz do carro estava absolutamente errado, apesar do que nunca ira saber disso.
A senhora voltou a cozinha e bebeu um copo de água. Depois se dirigiu para o cômodo fora da casa onde guardava as ferramentas com as quais cuidava dos canteiros e começou a cavar. Cavava lenta e aos poucos começou ir mais rápido, pegando o jeito e cavou a um tanto razoável, já estava com o rosto suado e sujo, o vestido manchado de terra, as sandálias em estado miserável. Apoiou-se na enxada, enxugou o suor com as costas da mão e respirou fundo. Olhou o céu. O gato miou perto e retirou-a do seu momento contemplativo: ‘Ei Jana!’ Fez um cafuné no gato que passava o corpo em suas pernas. Essas manias que os gatos têm de marcar a sua família e achar que você tem obrigação de acarinhá-los. Mas ela não pensava assim. A mente estava preguiçosa por ter cavado tanto. Andou ate o rapaz estranho, agora morto e ensangüentado, sem um pedaço da perna, e arrastou-o por debaixo dos braços ate a cova, mais ou menos funda, onde o jogou. O gato ainda estava por ai e ela disse: “Vem com a mamãe ate a cozinha Jana”, imitando voz infantil, como se fosse a do gato. Não sei o que as pessoas pensam quando fazem voz fina e imaginam que é de um bicho ou de uma criança. É ate colocá-los no mesmo patamar de inteligência, mas isso seria uma discussão um tanto filosófica e a senhora não gostava de filosofia. Preferia fazer bolinhos, ver a novela, cuidar da horta e ir a missa todos os dias. O gato a acompanhou ate a cozinha onde bebeu um copo de água, tomou uma xícara de café. Não devia estar muito quente, pois ela o virou de um só gole, parecendo homens de obra apressados por remexer mais um tanto de massa pra colocar neste ou aquele muro. Voltou a senhora e com a enxada revolveu a terra de volta, tapando, bem tapado, o buraco. Via-se agora que era um quadrado, quase que medido, de terra remexida no quintal. Trabalho feito, ela voltou no cômodo das ferramentas, pegou um cesto e ainda voltou ate o quintal para pegar algumas jabuticabas. O pe estava cheio. Alguma formiga subiu-lhe na mão porque ela sacudiu os dedos energicamente e deixou de lado aquela empreitada maluca que é pegar frutas de noite sem lanterna. Voltou com a cesta e o gato no encalço. Ouvia-se um cricri que não se sabe se eram grilos ou estrelas.
A senhora simpática verificou a água dos cães, agora calminhos, e entrou em casa com a cesta do chão forrado de jabuticabas e o gato atrás. O gato ficou na cozinha e a senhora foi ate o banheiro. Tomou um banho, colocou a camisola, as meias e foi ter bons sonhos que quem trabalha tanto assim, merece ter.
Acordou cedo. Passou o café, fez os bolinhos e foi a missa. Voltou animada. Trocou de roupas (Colocou um macacão, um chapéu, luvas), pôs a ração do gato, dos cães, uma água doce pros passarinho pendurada nos paus da parreira de uva. Foi ate o cômodo das ferramentas e pegou o arminho, a colher de plantio, as sementes, a placa já pronta e o regador. Colocou na varanda e pegou ainda o radio a pilha onde colocou pra tocar uma musica mais antiga, da sua época, numa radio que só passava musica antiga, que tinha se esquecido no ontem.
Trouxe tudo para o quadrado de terra fofa e nem precisava do regador: o orvalho tinha tratado de molhar. Cantarolando a musica, pôs-se a fazer buraquinhos na terra, em fileiras, com intervalos de 20 cm cada – fileira e buraco. Colocou três sementinhas em cada e jogou terra fofa por cima. Ao final fincou no chão uma nova plaquinha: Hortênsias.

Por Claudia Gomes, sempre.