
Doce e suave como um abraço de mãe, ela me contou, com olhos vívidos, como acordou pela manhã. Chovia cântaros e “o doutor Rodrigo sempre diz que dia de chuva devia ser feriado nacional”. Foi ao toalete, fazer sua higiene matinal, colocou a ração do gato (“Sabe aqueles bichos de pelúcia fofos do pelo grande que a gente não consegue soltar? Meu gato.”) e se esqueceu da água. Preguiçosa, com ressaca de chuva, ela foi fazer o próprio desjejum. O gato miou aos seus pés sem tocar na ração. Até ela perceber o próprio erro. Fez um cafuné para compensar.
Foi se vestir, precisava trabalhar. Foi quando percebeu que o gato arranhava a porta ou a janela de vidro, não me lembro bem. Mas lembro da sua comoção quando me disse “Aí, adivinha o que ele queria fazer? Ver a chuva! Aí abri (a porta ou janela de vidro, não me recordo bem), ele saiu. Ficou olhando um pingo, outro pingo...” eu disse “Que fofo” e reparei que ela dizia muito “aí” e ficava com ares infantis. Aí, ela disse que pegou a bolsa e saiu de casa. O gato a olhou e miou. A cara, segundo ela, era de “Você vai mesmo sair?”. Fiquei pensando que talvez fosse carência de companhia, talvez uma ironia azeda por causa da chuva. Está claro uma vantagem dos bichos de pelúcia felpudos: não reclamam da água nem nos fazem repensar o destino do dia. A vantagem do gato é como disse minha amiga Stael: gatos humanizam.
Humanizada ou não, ela saiu. Precisava ir ao trabalho, era o costume diário, era a necessidade de se manter e pagar as contas no final do mês, inclusive a água e a ração do gato e a casa contra a chuva. Toda essa revolução jovem contra o capitalismo não a pegou, já que mesmo lutando contra o sistema, a realidade atual é de que, pra se ter um mínimo de conforto e poder pagar a faculdade, precisa-se de trabalhar. Não tem outra. Mas enquanto o gato miava, comunicando a sua despedida, ela olhou a chuva e nenhum desses pensamentos varou pela cabeça dela. A única coisa, imutável e utópica, que ela resumiu num suspiro foi que, infelizmente, não era feriado.
Por Claudia Gomes, sempre.
Por Claudia Gomes, sempre.
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