domingo, 25 de dezembro de 2011

O RETORNO



Demorei tanto tempo pra voltar que quando cheguei todos já tinham ido embora. Restava a casa de pau a pique com as janelas abertas ao sabor do vento. Parecia menor que eu me lembrava. Deve ter algo com a proporção, já que naquele tempo eu era criança. A porta também estava aberta. Entrei com o coração quase parando e vi a casa vazia, cheia de insetos. Vitoria, meu alter ego com oito anos me acompanhava e me mostrou uma borboleta morta no chão. As asas azuis despedaçadas não haviam perdido seu brilho. Percebi que não passava de um simbolismo. A casa em ruínas permanecia intacta em lembranças. Comecei a contar pra Vitoria onde ficava cada móvel, cada acontecimento. Os cheiros me vieram e eu engoli as lagrimas. As vozes ficaram mais nítidas, os moveis de madeira tomaram contorno e quase vi o meu bisavô tomando café e contando histórias. Vitoria que me tirou do enlevo dizendo que não era bom ficarmos ali. Tinha muitos insetos e bem que poderia ter uma cobra.


Saí pro terreiro que não havia mais. Estava cheio de arvores e pés de frutas e verduras. E mato, muito mato. Vô Hipólito gostava de vê-lo bem limpinho e quando eu estava lá ele sempre me dava uma vassoura de piaçava logo pela manhã e mandava eu varrer: cabeça vazia é oficina do diabo. Eu varria meio a contragosto, mas contente por estar ali e ansiosa por acabar e poder brincar mato afora. Perguntei a vitoria se ela tinha uma arvore predileta. Ela me contou da mangueira pra qual levava as bonecas. Disse que o pai ia construir uma casa de bonecas lá embaixo. Fiquei sabendo mais tarde que era só uma viagem da cabeça da pequena. E eu contei a Vitoria da minha arvore predileta. Uma mexeriqueira de galhos frondosos que cresciam prum lado só do tronco e faziam uma cabana de sombra. Era bom conversar com ele enquanto comia os seus frutos. Vitoria me apontava arvore por arvore da fruta: é aquela ali? Aquel’outra? Não era, não estava mais lá. Fiquei sabendo depois que ela morreu anos antes do meu bisavô e que era muito velha, que estava ali a muitas décadas antes de eu nascer. Fiquei triste.


O córrego onde tia Ana lavava roupa e areava vasilhas estava mais aberto, com pouca vegetação ao redor e tinha virado abrigo de porcos, passava dentro do enorme chiqueiro. Eu fiquei ali, olhando os porcos, esquecida da existência dos bichos de pé. Vitoria me mostrou um que tinha carnes penduradas nas orelhas a modo de brinco. Nasceu assim. Não vi uma cobra, um cururu, tinham derrubado o paiol e a varandinha. Onde era a casinha antigamente tinha uma vegetação espessa, fruto dos anos de esterco humano. Vamos voltar pra ver os gatinhos, me chamou vitoria. Eu concordei e tornei pela picada no mato, ladeada de pés de café. Aliás, carregadinhos, a safra vai ser boa. Mas antes um instante antes de me virar eu vi o pé de cacau carregadinho lá no fundo e sorri. Aquele lugar não era um lugar fantasma. Era renascido e cheio de vida, espelho da alma do meu bisavô!


Por Claudia Gomes, sempre!

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