domingo, 25 de dezembro de 2011

ENTREVISTA ANDRÓGINA





Como tudo começou?

Um dia estava sentada a mesa de chá quando, sem querer, devorei uma libélula. Cuspi e veio o verso.

Viste o verso?

Eu vi, ele me pedia para virar. O lado da folha ou de bruços? Mantenho a duvida até hoje. Talvez tivesse sido diferente.

E obedeceu o vice e versa?

O verso do verso eu li.

E aí?

Virei com ânsia, como criança, e vomitei quando senti.

O quê percebeu em si?

Cócegas no estômago. Em festa, insetos coloridos e diversos, poherméticos, abstratos. Poéticos. Me alucinaram e eu rezei de medo.

Tudo isso você sentiu no verso do poema?

O verso escrito com pena de mim.

Pena e tinta?

Apenas pena. Porque eu não percebia as entrelinhas do que estava escrito a tinta.

Em algum momento ficou escuro?

Sim, mas não me lembro quando. Rodopiei e me vi numa floresta. Eu era o inseto. O mundo era um universo e das arvores pendiam palavras.

Comeu alguma?

Várias. Umas doces, outras amargas. A palavra bege era insossa.

Bege é uma cor.

E também uma palavra. Toda cor é palavra, toda palavra tem cor.

Se você diz.

Sim, eu fui, eu estive lá.

E daí?

Fui comido por um camaleão, regurgitado, devorado por uma borboleta. Copulei com uma joaninha.

Tem certeza?

Absoluta. Conheci meus filhos. Tinham a minha cabeça e o corpo da mãe.

Interessante. E quando voltou?

Quando amanheceu.

E como soube?

Senti uma aurora boreal. Ovulei, tive orgasmos. Olhei a minha frente e eu havia escrito um livro inteiro em língua estrangeira. Gritei pro mundo, vieram me ver. Publiquei. E foi assim que eu ganhei a fama.

Obrigada. A matéria vai pra primeira folha com a manchete “Palavras Metamorfas” em homenagem ao titulo do livro. Tudo bem?

Tudo ótimo e você? ...Volte sempre. Quer um chá?

Não, obrigada. Estou cheio. Acabei de engolir uma libélula.
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Por Claudia Gomes, sempre!

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