
Como tudo começou?
Um dia estava sentada a mesa de chá quando, sem querer, devorei uma libélula. Cuspi e veio o verso.
Viste o verso?
Eu vi, ele me pedia para virar. O lado da folha ou de bruços? Mantenho a duvida até hoje. Talvez tivesse sido diferente.
E obedeceu o vice e versa?
O verso do verso eu li.
E aí?
Virei com ânsia, como criança, e vomitei quando senti.
O quê percebeu em si?
Cócegas no estômago. Em festa, insetos coloridos e diversos, poherméticos, abstratos. Poéticos. Me alucinaram e eu rezei de medo.
Tudo isso você sentiu no verso do poema?
O verso escrito com pena de mim.
Pena e tinta?
Apenas pena. Porque eu não percebia as entrelinhas do que estava escrito a tinta.
Em algum momento ficou escuro?
Sim, mas não me lembro quando. Rodopiei e me vi numa floresta. Eu era o inseto. O mundo era um universo e das arvores pendiam palavras.
Comeu alguma?
Várias. Umas doces, outras amargas. A palavra bege era insossa.
Bege é uma cor.
E também uma palavra. Toda cor é palavra, toda palavra tem cor.
Se você diz.
Sim, eu fui, eu estive lá.
E daí?
Fui comido por um camaleão, regurgitado, devorado por uma borboleta. Copulei com uma joaninha.
Tem certeza?
Absoluta. Conheci meus filhos. Tinham a minha cabeça e o corpo da mãe.
Interessante. E quando voltou?
Quando amanheceu.
E como soube?
Senti uma aurora boreal. Ovulei, tive orgasmos. Olhei a minha frente e eu havia escrito um livro inteiro em língua estrangeira. Gritei pro mundo, vieram me ver. Publiquei. E foi assim que eu ganhei a fama.
Obrigada. A matéria vai pra primeira folha com a manchete “Palavras Metamorfas” em homenagem ao titulo do livro. Tudo bem?
Tudo ótimo e você? ...Volte sempre. Quer um chá?
Não, obrigada. Estou cheio. Acabei de engolir uma libélula.
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Por Claudia Gomes, sempre!
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