domingo, 25 de dezembro de 2011

DOS PERIGOS DE SE IR AO DENTISTA ou CANIBALISMO EMOCIONAL

Para um tal doutor Arthur*, em quem baseei, o personagem, livremente. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
###




Não encontrava outra palavra para descrever a cena de que era protagonista: bizarra. Lembrando Denis, o Pimentinha e ruivo como raios de sol o dentista, formado de novo, se divertia com a boca de sua paciente. Jorravam sangue e pó de dente, enquanto a simpática assistente segurava a mão suada da moça e esguichava água impiedosamente (talvez displicentemente) em sua boca. Dentista e assistente conversavam cotidianamente em termos alegres, coisa que devia ser comum a Da Vinci já que o assunto era as experiências de faculdade no que se diz respeito ao cérebro humano: bonito, agradável vê-lo se partir em dois ou mais. Porém o cheiro era tão ruim como o de ossos em pó, que exalava o lugar. Definitivamente era desagradável.





A moça ficou, como diria Manoel de Barros, estudada. Ao mesmo tempo que crescia uma inquietação na sua cabeça, uma coceira embaixo do couro cabeludo. Como se, num estalo, o crânio pudesse abrir e revelar, diante dos olhares estupefatos e deliciados do cirurgião dentista e sua assistente, que ela, a indefesa** paciente, também tinha um cérebro. Daqueles bons de serem cortados.





Cérebro era, sempre foi, para ela, uma coisa pegajosa e pulsante. Como um ninho de gordas larvas. Imaginou, escandalizada com a própria ousadia imaginária, o doutor segurando um cérebro, com admiração, entre suas duas mãos e o devorando, avidamente. Com gosto. Talvez o seu... A cena tinha uma beleza macabra como a desses filmes de vampiros sensuais*** que estão tanto na moda. A paciente ficou assustada e lembrou do “Médico e o Monstro”. Sentiu-se fazendo parte de uma experiência. Pensou então nos riscos de se andar com a cabeça a mostra. Os europeus que estavam certos em adorar o uso de chapéus. Ela não entendia como num país tropical as pessoas não se protegessem com mais freqüência do calor. “É claro que bonés são deselegantes e não contam”. Pensou, quase em voz alta, mas a boca arreganhada não permitia um pio sequer.





Com isso, voltou à realidade e percebeu que, talvez, estivesse em perigo. E se ali, na cadeira, a anestesia se tornasse geral e ela perdesse o órgão que mais gostava de exercitar? Ficou tensa, suou frio. Mas, naquele ponto, não podia mais parar a pequena**** cirurgia para extração dos cisos.





O tal doutor pediu que ela ficasse quieta para não atrapalhar, e ela obedeceu, medrosa.





Lá fora, na Rua Sete, o sol brilhava no céu azul, sem pensamentos.

###



*a gentileza em pessoa. Não consigo imaginá-lo comendo um cérebro. Apenas ouvi um comentário inocente, e nem tão dramático, entre ele e sua assistente enquanto me extraiam os cisos. Achei a situação divertida e me lembrei da paixão da sumida amiga Tokiko, quando ainda estudava medicina, e falava em abrir pessoas. Sério, dava medo.
**a anestesia a impedia de gritar ou morder, enfim.
***falando em sensualidade, como é que dentistas conseguem beijar na boca normalmente???
****ainda bem que era pequena. Será que a culpa foi da anestesia?



Por Claudia Gomes, sempre!

P.S: E depois de toda a loucura, o dentista ainda deixou PEDAÇOS DE DENTES na boca da mocinha! Cadê alguém pra recolher a licença dessa criança? ¬¬' Esqueci de dizer que o lugar era brega e que a mocinha sofreu porque não tinha toalhas adequadas (saiu ensopada de agua) nem oculos de proteção, de modo que agarrou um pedacinho de dente no olho dela... alem do quê o doutor não fez nada quando a pressão dela baixou... verdadeiro CASTELO DE FRANKSTEIN! >.< #eforamfelizesparasempre

0 comentários: